quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Dor do suicida


O suicídio é uma ideia que não me abandona. De quando em quando insiste em bater-me a porta e dizer: "Olá, voltei". Já perdi as contas de quantas vezes essa ideia me toma a caixa do juízo.

Tenho procurado um alento nas religiões, porém tenho a plena convicção que são apenas subterfúgios para fugir da imensidão que existe em mim. Uma imensidão escura a qual não suporto mais olhar.

Dou voltas em torno de mim mesmo e a concepção de Deus a cada dia me parece mais distante, se torna tão longínqua que um dia me perderei da destra da divina providência.

Talvez seja um pouco de melindre, é o que sugerem. Ou preguiça, querem outros. Mas a verdade é que estou enjoado de mim mesmo, de criar vínculos sociais para fugir de mim, de buscar e abandonar todas as minhas responsabilidades por não suportar ver o meu reflexo no espelho.

Não só minha mente é suicida, como todo o meu corpo também o é. Talvez niilista, por mais que goste da vida, meu desejo por liberdade fere os conceitos de Sartre e Heidegger. Meu desejo por liberdade é matéria que meu corpo não alcança.

Não sentirei saudades, não sentirei remorsos... Apenas vou seguir meu curso rumo ao desconhecido.

Um dia não pagarei a energia elétrica e virão os homens cortar a luz. Assim é morrer, apagar as luzes do teatro e não abrir as cortinas numa certeza da aflição da plateia.

Dorme, menina. Dorme tranquila, minha consciência. Um dia o doutor dará uma anestesia geral e tu parará de sofrer desta dor tão agonizante que é o existir. Tua dor é de viver, de viver para si e para os outros, mas um dia o doutor Ramon San Pedro cortará a energia elétrica e ficará tudo bem. Agora durma, menina. Fique quietinha enquanto a paz não vem.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Sonhos de Poti

Caramuru
         muru
               ru...

Gritou o indiozinho.

Homem branco chegou...

Chegou
    Chegou
        Chegou...

Na beira do rio  Iara canta

Iraquirtan, Curumim, pedra de sol...

Pindorama
          Dorama
                   Rama...

Ah, terra hospitaleira,
Pronta para receber homem sem cor,
Barganhar espelho por pedra de sol
Fazer cacique grande.

Caramuru...
Grita Poti,

Caramuru é peixe,
Pindorama terra é.

Tupi, Guarani
Guarani, Tupi
Potiguá, mãe d'água sussurra:

"A jovem Moema, o boto levou pro fundo do mar"...

O navio aportou,
Poti repete para si:

"O Boto levou pro fundo do mar
                        Pro fundo do mar..."

Sangue real

Óia seu moço
Iô num sô dessas bandas,
Num se assuste com meus óios vermeio
Essa pele preta
De  prutegê um corpo bronco
Da quentura do sol.

Estes pés rachadu
São de pisá terra,
Socá arroz, café... braço de pilão
Fecundação da vida.
Mãos da cor da terra, sim sinhô.

- Eu sou de lá!

Sou fio de rei, seu moço.
Descendo da famía real.
Pode me chamar de preto,
Me tirá os direito, me chunchar com ferrão,
Mas não nego meu sangue
Sou preto de raiz, seu moço,
Sou da linha direta de Xangô!

Seu machado, patrão
Virou a cacimba de fundo pro mar
Na passagem do tempo
Para ancoragem e sustento das pernas
no fundo das águas]
E isso eu não nego, inhô
Que sou de origem Nagô
Lastragem real de Xangô.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Mixagem

Dinheiro?
Para que dinheiro
Se meus versos não estão a venda, meu senhor?]

A besta  sobe a rua treze que corta a rua quatorze
Palita os dentes após o almoço em Bagdá.

Poesia não se vende em qualquer feira
Não se dá em qualquer pé
É fruta graúda, é fruto dos bons,
meu senhor.

Quem de Cora à Coralina deseja ir
Boa Pessoa tem que ser,
Pela manhã uma dose de Quintana,
Uma poção de Mário e Assis batida no liquidificador
E meia torta de Cecilia
Come, Mastiga, Tritura, Clariceia
Antes da viagem reze a São Vinícius e a São Noel]
E então parta.

A paisagem é clara:
Graça na Aranha, Aranha no Carlos,
Carlos na mosca a mosca no pão.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Louvor à Copacabana

Ah, Copacabana dos dias meus,
De sol e mar
De nuvens brancas embriagadas
No infinito azul do céu.

Em qualquer esquina, em qualquer lugar
Entregue a companhia de bons amigos
Da branquinha, da pretinha e do violão
A vida passa, a vida diz: "Copacabana".

Duque de Caxias,
Trago em meus versos seu asfalto,
seus corcovados e seus edifícios,
Poeira que de mim não sai.

A brisa mansa vem anunciar,
Do amor que será, que será:
"Ai, de mim. Copacabana!"

Dente de Leão I

Redondo e leve
Como a bola de sabão
Vai subindo para o céu
O meu dente de leão.

Vai macia como a pena
Rindo para o vento,
Vai cantando, vai girando
O meu dente de leão.

Vou fazer uma oração
Ao meu dente de leão
Vou pedir um novo amor
Ao divino São João.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sistema

Ao porto de metano
Residência fixa de Narciso
Urubu é rei.
É lá que me vejo Eros
A procura de minha consciência
No cais, no cal, na lama.

Naftalinas holísticas
Entorpecem os neurônios de meus sapatos.
Calçados, cansados calçados de ir e vir]
De Giramundo, de vagabundo,
Vaga mundo, Vagar mudo

- Filho da puta!
Delatam silenciosamente
As baratas em meus bolsos
Me informando das horas,
Sempre a espera das 4:20

Há guerra no Brás,
Avalanche de gente
Indo e Vindo.
Corpos vagando
Sem ritmo, sem tino
Em meio a violência da cidade.