sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Devaneios 1
Do amor que me veio
Tantas quanto se pode imaginar,
É primavera e o amor chegou
De frauda e asa quebrada,
Nem alto e nem baixo,
Nem gordo e nem magro,
Não muito feio, não muito bonito,
O amor não olha essas coisas
O amor apenas... apenas se dá.
É primavera
O amor caiu sobre o meu telhado
e rolou telha a baixo até minha janela.
Infeliz, tinha o peito nú.
Chegou na hora do chá,
Se fica para o almoço não se sabe.
Pequenino, pequenino,
Pequenino é o meu amor
Que paira sobre a flor da paineira
Em frente minha janela,
Ao almoço, da cozinha o vejo,
Gorjeia meu sabiá, e o menino ri!
Ah, que riso gostoso,
É o riso do amor,
É primavera
Na porta de casa, na porta do bar...
Olho pela vidraça do carro,
PA-RA-LE-LE-PI-PE-DO
Digo ao pensar no amor que me veio
O pequeno anjinho me espia
Num tom sério finjo que não o vejo
PA-RAA-LE-LE-PI-PE-DOOO...?
Um sorriso imenso brota do vasinho de orquídea
Foi ali que o danadinho se escondeu.
O amor,
Sem rima, sem métrica e sem forma,
Um amor reverso ao parnasiano,
Reverso ao simbólico e ao moderno
Um amor romântico se me veio,
Pois é primavera... é primavera e o meu amor dorme
Dorme dentro do vaso de orquídea
que agora jaz despetalado.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Fora de ordem
A noite chegou
O dia acabou
E o que vai ser?
O fogo queima a lenha
A colher gira na xícara
A mosca cutuca a aranha
A aranha deglute o rato
Ei meu amor
O dinheiro acabou
A fome apertou
E o que vai ser?
Silêncio entre a mobilha
"Tenho fome" geme o fogão
O gato atrás da moita
A boca cospe o pão.
Ei meu amor
A fome apertou
A noite chegou
O dinheiro acabou
E o que vai ser?
A xícara esfola o pires
O fogão engole a lenha
O garfo espeta a ervilha
A aranha deglute o rato".
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Dama de Paus
E o sorriso que não dei
Deixo o meu legado
Dama de Paus.
Ao filho que não veio
Quero que saiba
Que meu corpo rola do alto do morro
E mais uma travesti,
Só mais uma travesti
dá a luz ao seu rebento.
Dama de Paus,
de pau na virilha
Dona de um baralho mudo
Dona do tarô do mundo
Irreverente, militante, preta
Gostosa, e não se engane: Mulher.
Este é o legado que amamenta
no bico de teu seio:
Dama de Paus,
Zumbi, Anastácia, Dandara
Mãe Beata, Tia Ciata, Rafael Braga.
Sangue, Axé, Pinho Sol
É o que traz em suas ancas
É o que traz para lavar a terra.
Não se engane, meu amigo,
Dama de Paus, é a mulher do fim do mundo.
Perdoo-te por sua ausência
E também por beberes mais do que eu
Tu és o meu desejo
E eu o desejo de tua existência.
És tu órfão como eu,
Nasceste de mãe sem pai
E se perdeu no caminho da Vida.
Perdoo-te pelo pão e pelo vinho
Pela água e pela uva
Que vós mesmo abandonaste
Chegou a seca no sertão do Cariri
Meu gado morreu
Devido a guerra e a seca
Retirou-se o povo do sertão do Ceará
Ai de Juazeiro! Ai de Paraíba!
Me perdoe Deus
Escute minha prece:
Olhe pro cerrado, olhe pra Ananais
Meu Padim Ciço,
Rogue a virgem santíssima por nóis
Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Eu te perdoo Deus,
Te perdoo pela seca, pela sede
Pela morte,
Todo dia é dia de seca, de morte, de fome...
Te perdoo por levar minha gente pra arar a terra
Da fazenda do menino Jesus de Praga
Te abençoo Deus pelo pão que não comeu
Pelo vinho que não bebeu
Pela sede inconstante de minha constância.
Te perdoo Deus,
Como não perdoar-te se somos um?
Eu me perdoo Deus
Me perdoo pelos milagres que não fiz,
Pelo choro que não sequei
Me perdoo por não ser como tu
Me perdoo por ser Deus.
terça-feira, 22 de agosto de 2017
Toda a cidade passa
Boquiaberta, passa,
Entre os palavrões...
Embaixo da ponte o mendigo
rouba o pão nosso de cada dia
Cus, rolas, bocas, bocetas
Tudo espalhado pela cidade
Entre putas e ninfetos
Um consórcio da vida ou da morte,
drama e lei de sobrevivência.
Lágrimas chovem sobre a vidraça dos carros
Abafando o grito mudo
de um aborto sem importância,
mais um (a)feto descartado
o mendigo sujo jogou-se
do viaduto,
o pão fundiu-se com a carne
e está servida a ceia dos miseráveis.
Entre bocas e cus
Pés e mãos
todos estatalados ao chão
Debaixo do viaduto,
cada qual pegando sua parte
Na ceia dos miseráveis.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
Fragmentário
Metade de mim
é tudo o que lembro
quando absorto
dentro da noite escura.
A outra metade
é tudo o que esqueci
fronte ao mar.
(Mergulho e acordo na noite estrelada dos céus de Gogh)
Há calmaria revolta,
solidão e pranto
das águas que se agitam
na arrebentação do cais em mim.
Esvaem-se meus pensamentos
num mergulho a fio
pelas nebulosas da abóbada.
Jorram ressacadas sobre os madrigais
perpétuas estátuas de sal
a salgar o pranto em mosaicos
no calçadão de Copacabana.