sexta-feira, 10 de março de 2017

Formosa minha

Formosa minha
Vossos seios jorram  luzes sobre o sententorial
Principia o espetáculo da aurora
de meus pensamentos

Musa de minha trova
Monsehora dos versos vulgares
deste tão velho cancioneiro
Ascendentes ao firmamento de minh'alma]
Arrancastes o véu de minhas cãs envelhecidas]
Assolando-me o em assombro os luminares
a beleza das estrelas mortas
a espelhar no lago.

Oh, delírio de minha infância,
Candura e augúrio meu
Cândida ao mofo de minha amargura
Que se espalha nas estrofes destes versos.
Onde estás vós?

....

Meu coração soluça
pelos seios fartos de minha amada
Minha lira calou-se
Pranteando os olhos de minha
amiga

Choram as harpas reais,
Dilui-se a sacos e pó
A cinza reduz-se meu reinado.
Onde estás vós, ó musa dos dias meus?

Têmpera amargura deste bélico
Pois falta-lhe a pombinha à  janela.
Ó luz sobre a abóbada celeste
Monsehora de meus versos,
Onde pousastes pomba minha,
Flamingo meu?

sexta-feira, 3 de março de 2017

Letrinhas!

Letrinhas de massa
Saídas da fábrica
Direto do prato
Direto pra gente
Consoante e vogais
misturam-se numa mixagem infernal
Namoram, brigam,
riem e choram
enfim se enlaçam
formando palavras

Letrinhas vogais
quem vos criastes?
Quem vos inventastes?

Giram, giram,
num elefante azul
com orelinha de hipopótamo
riam, riam letrinhas, riam para mim...

Elas giram, giram, giram...
parecem borbulhar,
no fim do dia elas adormecem,
Dormem como a bela adormecida
esperando a gente acordar
Para dar continuidade 
ao show da fala...

O letrinha, volte cá!
Não terminei de prosear.
pois, pois, ela correu, caiu e adormeceu. 



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Esperança

Quando me for
para além das roseiras
o céu me será por lar,

Um conto nos lábios de um sábio
uma estrela extinta
no seu fulgor materialista
Sobre o céu da nação,
brilhe minha águia e minha serpente.

- Aonde vais ó sábio?

Há caminhos de sombra
além do roseiral,
estrelas mortas brilham,
lagartas morrem e riem
Em  um contrafeito espacial.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Nostalgia 2

Fui menino e hoje sou mulher
Fui mulher e hoje sou velho
Fui velho e hoje sou pó
Fui pó e hoje sou moça
Fui moça e hoje sou homem
Fui homem e hoje sou anciã

O vício anda dentro do tempo
Que fora do tempo é
E tempo não é,
O tempo que fora
Que é e não se sente

Fui tempo e hoje sou semente
Da semente puro mar,
-Oceano em Terra

Sou Terra, fui mar
Gaia inicial
fonte e primazia
Onde tudo se germina, se cria, se finda
Nostalgia mecânica,
inércia motora
Que violenta os corpos.

Nostalgia 1

No despertar tenho morte
Angústia de quem vive
Debruço-me sobre ela
E admiro-a qual paisagem

- Profunda contemplação

(...)

Senhora que me cerca
Em adágios chorosos,
Incógnita de quem ama

(...)

Um copo de gim sobre a mesa
O corpo de Gina sob a mesa

- Silêncio!

Alguém adormeceu...

domingo, 1 de janeiro de 2017

Inacabado

Aos amigos do peito
Apenas um soluço
Isso é tudo o que lhes posso dar
Nada passou de um engano prosaico
quando o ônibus em alta velocidade passou por cima de um corpo em inércia e desmembrou-o o cegando as vistas.

Não lembro-me de detalhes, contudo lembro  o suficiente para lhes dizer que a tragédia se sucedeu na rua 23 de maio, na esquina 12, quarteirão terceiro de uma São Paulo cinza.

Pois bem, assim fora o infortúnio. Voltava por volta das onze horas do dia de casa de Lulu, ou Laurieh, como quiser. Convidara-me para um chá das nove em casa de sua irmã Lurdes, mulher do alfaiate, loja 305 no centro.

(...)

Para quê contar o resto? Oras, que Brás Cubas de Machado lhes narre sua tragédia, de mim nada direi.

(...)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Cruzamos a rua vinte e três e ele disse que me amava. Mal sabia que  não o faria mais.