sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Esperança

Quando me for
para além das roseiras
o céu me será por lar,

Um conto nos lábios de um sábio
uma estrela extinta
no seu fulgor materialista
Sobre o céu da nação,
brilhe minha águia e minha serpente.

- Aonde vais ó sábio?

Há caminhos de sombra
além do roseiral,
estrelas mortas brilham,
lagartas morrem e riem
Em  um contrafeito espacial.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Nostalgia 2

Fui menino e hoje sou mulher
Fui mulher e hoje sou velho
Fui velho e hoje sou pó
Fui pó e hoje sou moça
Fui moça e hoje sou homem
Fui homem e hoje sou anciã

O vício anda dentro do tempo
Que fora do tempo é
E tempo não é,
O tempo que fora
Que é e não se sente

Fui tempo e hoje sou semente
Da semente puro mar,
-Oceano em Terra

Sou Terra, fui mar
Gaia inicial
fonte e primazia
Onde tudo se germina, se cria, se finda
Nostalgia mecânica,
inércia motora
Que violenta os corpos.

Nostalgia 1

No despertar tenho morte
Angústia de quem vive
Debruço-me sobre ela
E admiro-a qual paisagem

- Profunda contemplação

(...)

Senhora que me cerca
Em adágios chorosos,
Incógnita de quem ama

(...)

Um copo de gim sobre a mesa
O corpo de Gina sob a mesa

- Silêncio!

Alguém adormeceu...

domingo, 1 de janeiro de 2017

Inacabado

Aos amigos do peito
Apenas um soluço
Isso é tudo o que lhes posso dar
Nada passou de um engano prosaico
quando o ônibus em alta velocidade passou por cima de um corpo em inércia e desmembrou-o o cegando as vistas.

Não lembro-me de detalhes, contudo lembro  o suficiente para lhes dizer que a tragédia se sucedeu na rua 23 de maio, na esquina 12, quarteirão terceiro de uma São Paulo cinza.

Pois bem, assim fora o infortúnio. Voltava por volta das onze horas do dia de casa de Lulu, ou Laurieh, como quiser. Convidara-me para um chá das nove em casa de sua irmã Lurdes, mulher do alfaiate, loja 305 no centro.

(...)

Para quê contar o resto? Oras, que Brás Cubas de Machado lhes narre sua tragédia, de mim nada direi.

(...)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Cruzamos a rua vinte e três e ele disse que me amava. Mal sabia que  não o faria mais.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Anti Lírico

Quero-te não para amar-te, nem para ter-te. Quero-te apenas para velar-te o sono.

domingo, 27 de novembro de 2016

Da bailarina

Danse, Tremulous, Cygne
Um céu róseo 
desabrocha nas fumaças dos motores
A menina beija a mãe
sai por aí ao encontro do seu destino
Seus pezinhos ligeiramente delicados 
tateam com cuidado as Bromélias 
que lhe pende ligeiro sorriso
e dizem entre si:

- A onde vais menina? A onde vais?

Linearmente ereta,
mãozinhas na cintura,
fôlego suspenso,

- Creio que ela correu. Sim. Certamente. Ela correu.
A menina do coque  róseo, do sorriso róseo...
Parou em frente a confeitaria, 
cheira as mãozinhas, esfrega-as ao estômago,

- Mate Por favor!

Uma pequena pausa, 
um ligeiro e eterno sorriso...

- Um mate, Por favor!


À vous aimer

A menina do vestidinho rosa
chegou, parou, entrou no edifício 36, da rua Lorena

"Atelier Mme. Odette Ancour"

Era ali onde se refugiava quase todas as manhãs, 
Onde seus pezinhos em formação 
cumpriam seu ritual ortodoxo
de salvação pela arte.

...Alguém lhe pergunta do amor,
Mas de nada   ela sabe,
Exceto de que o amor é rosa,
assim como tudo que há nela o é.
A pequena não se engana,
A pequena sabe
que do amor tudo é dança, 
tudo é um beijo no cenho materno,
que o amor é apenas MATE. 
Puro MATE.