sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Fora de ordem

"Ei meu amor
A noite chegou
O dia acabou
E o que vai ser?

O fogo queima a lenha
A colher gira na xícara
A mosca cutuca a aranha
A aranha deglute o rato

Ei meu amor
O dinheiro acabou
A fome apertou
E o que vai ser?

Silêncio entre a mobilha
"Tenho fome" geme o fogão
O gato atrás da moita
A boca cospe o pão.

Ei meu amor
A fome apertou
A noite chegou
O dinheiro acabou
E o que vai ser?

A xícara esfola o pires
O fogão engole a lenha
O garfo espeta a ervilha
A aranha deglute o rato".

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Dama de Paus

Ao filho que não nasceu
E o sorriso que não dei
Deixo o meu legado
Dama de Paus.

Ao filho que não veio
Quero que saiba
Que meu corpo rola do alto do morro
E mais uma travesti,
Só mais uma travesti
dá a luz ao seu rebento.

Dama de Paus,
de pau na virilha
Dona de um baralho mudo
Dona do tarô do mundo
Irreverente, militante, preta
Gostosa, e não se engane: Mulher.

Este é o legado que amamenta
no bico de teu seio:
Dama de Paus,
Zumbi, Anastácia, Dandara
Mãe Beata, Tia Ciata, Rafael Braga.

Sangue, Axé, Pinho Sol
É o que traz em suas ancas
É o que traz para lavar a terra.
Não se engane, meu amigo,
Dama de Paus, é a mulher do fim do mundo.



Perdoo-te Deus
Perdoo-te por sua ausência
E também por beberes mais do que eu
Tu és o meu desejo
E eu o desejo de tua existência.
És tu órfão como eu,
Nasceste de mãe sem pai
E se perdeu no caminho da Vida.

Perdoo-te pelo pão e pelo vinho
Pela água e pela uva
Que vós mesmo abandonaste
Chegou a seca no sertão do Cariri
Meu gado morreu
Devido a guerra e a seca
Retirou-se o povo do sertão do Ceará
Ai de Juazeiro! Ai de Paraíba!

Me perdoe Deus
Escute minha prece:
Olhe pro cerrado, olhe pra Ananais
Meu Padim Ciço,
Rogue a virgem santíssima por nóis
Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Eu te perdoo Deus,
Te perdoo pela seca, pela sede
Pela morte,
Todo dia é dia de seca, de morte, de fome...
Te perdoo por levar minha gente pra arar a terra
Da fazenda do menino Jesus de Praga

Te abençoo Deus pelo pão que não comeu
Pelo vinho que não bebeu
Pela sede inconstante de minha constância.

Te perdoo Deus,
Como não perdoar-te se somos um?
Eu me perdoo Deus
Me perdoo pelos milagres que não fiz,
Pelo choro que não sequei
Me perdoo por não ser como tu
Me perdoo por ser Deus.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Toda a cidade passa
Boquiaberta, passa,
Entre os palavrões...
Embaixo da ponte o mendigo
rouba o pão nosso de cada dia

Cus, rolas, bocas, bocetas
Tudo espalhado pela cidade
Entre putas e ninfetos
Um consórcio da vida ou da morte,
drama e lei de sobrevivência.

Lágrimas chovem sobre a vidraça dos carros
Abafando o grito mudo
de  um aborto sem importância,
mais  um (a)feto descartado
o mendigo sujo  jogou-se
do viaduto,
o pão fundiu-se com a carne
e está servida a ceia dos miseráveis.
Entre bocas e cus
Pés e mãos
todos estatalados ao chão
Debaixo do viaduto,
cada qual pegando sua parte
Na ceia dos miseráveis.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Fragmentário

Metade de mim
é tudo o que lembro
quando absorto
dentro da noite escura.
A outra metade
é tudo o que esqueci
fronte ao mar.

(Mergulho e acordo  na noite estrelada dos céus de Gogh)

Há calmaria revolta,
solidão e pranto
das águas que se agitam
na arrebentação do cais em mim.

Esvaem-se meus pensamentos
num mergulho a fio
pelas nebulosas da abóbada.
Jorram ressacadas sobre os madrigais
perpétuas estátuas de sal
a salgar o pranto  em mosaicos
no calçadão de Copacabana.

domingo, 23 de julho de 2017

Morbidez

Metade de mim é
antropofagia mórbida
De uma rosa adormecida
no espelho de minha consciência.

A outra metade é saturação
entre o eu e o mim
Ponte que liga
realidade e fantasia;

O que sou eu
quando não uma guerra
entre o hipônimo e o hiperônimo?
Quem sou eu
caso não um elo
do adjetivo com o substantivo?

Nesta valsa
que liga as orações
sou capacho.
Na contradança
desta toada sem sentido
Monsenhor, sou vassalo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Segregário

Flor
sobre o abismo.
Gente
gritando socorro.
Dor
na pátria civil.
Morte
nas favelas e guetos.
Construção
de gente faminta.
Justiça
implorando água.
Instrução
aos porcos.

Do céu da pátria chove
um pranto abundantemente
vermelho];
Seu Zé no alto do morro
chora
O sangue preto
do filho nos braços.

Miséria. Miséria.
Miséria no chão da pátria.
A fome assola minha gente,
Bocas cheias de dentes
riem ao sol
Riem o sal dos olhos
diante do fantasma da pobreza.

- Onde vais operário?
Teu suor já salgou por demais a terra
Não te demores por onde fores
O vosso enterro é logo já.